Mover na COP-30 e o impacto real na revolução automotiva brasileira

O Programa Mover chega à COP-30 como símbolo da transição energética brasileira, mas sua execução ainda expõe disputas, gargalos e desafios que definem o futuro da indústria automotiva.

O Brasil chega à COP-30 com um daqueles assuntos que misturam expectativa, ansiedade e um toque de drama digno de bastidor político: o Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover). Para muitos, o Mover virou a estrela da festa; para outros, é aquele convidado que promete muito, entrega bastante, mas ainda deixa um rastro de incertezas pelo caminho. No centro disso tudo, o país tenta mostrar ao mundo que a indústria automotiva nacional finalmente encontrou uma rota mais limpa e ousada.

O Mover nasceu como herdeiro turbinado do Rota 2030. E quando se diz turbinado, não é exagero: os incentivos podem chegar a valores até quatro vezes maiores que o programa anterior, algo que naturalmente faz os olhos de qualquer empresa do setor brilharem. Afinal, quem trabalha com inovação automotiva, redução de emissões e tecnologia verde sabe o quanto isso exige investimento pesado. Mas, como quase toda boa novela brasileira, existe sempre um porém.

Por trás dos discursos animados, há uma engrenagem que ainda range. A distribuição dos créditos virou uma verdadeira corrida digital em que gigantes do setor avançam como quem disputa pole position. No primeiro minuto da abertura anual, empresas de grande porte praticamente zeraram o orçamento de R$ 3,8 bilhões destinado aos incentivos. Literalmente no primeiro minuto. Enquanto isso, fábricas menores, startups e fornecedores de autopeças ficam na arquibancada esperando sua vez — que, cá entre nós, muitas vezes demora mais que o esperado.

Esse desequilíbrio criou uma espécie de “campeonato automotivo paralelo”, onde vencer depende mais da velocidade de clicar no sistema do que da qualidade do projeto. O resultado? Trimestres inteiros, como aconteceu no segundo deste ano, em que nenhum crédito foi aprovado. Zero. Um silêncio administrativo que fez muita gente no setor se perguntar se o Mover estava realmente preparado para atender à diversidade da cadeia automotiva.

Entre desafios e disputas, o programa ainda assim conseguiu algo raro: movimentar o mercado. Ficou claro que empresas de todos os tamanhos correram atrás de avançar em P&D, pesquisando desde novos materiais até soluções de propulsão mais eficientes. Instituições como FINEP e BNDES se tornaram parceiras frequentes na viabilização de iniciativas que talvez jamais saíssem do papel sem esse tipo de fomento. Na prática, o Mover mexeu com o ambiente, trouxe energia para o debate e reacendeu a vontade de inovar.

Mas a COP-30 não gira apenas em torno da disputa por créditos. Com a chegada do IPI Verde, prevista para entrar em vigor a partir de 1º de novembro, a mudança ganha contornos ainda mais profundos. Agora, o imposto passa a favorecer veículos elétricos, híbridos, híbridos flex e modelos de maior eficiência energética. Enquanto isso, carros movidos exclusivamente a gasolina ou diesel encaram aumento de alíquotas que podem chegar a até 18,3% — especialmente no caso de SUVs a diesel.

O movimento coloca as montadoras diante de uma encruzilhada interessante: ou reorganizam seus portfólios para acompanhar a maré verde, ou se preparam para perder espaço num mercado que, claramente, está virando a chave. A vantagem competitiva do etanol brasileiro retorna ao centro das atenções, e soluções como os híbridos flex ganham força no debate técnico e climático.

A reciclabilidade veicular, apesar de menos comentada, também passa a influenciar o IPI. E isso abre um universo totalmente novo. Empresas começam a estruturar operações de desmontagem e reaproveitamento de materiais, mas ainda esbarram na falta de regulamentações claras para validar créditos e mensurar índices. Sem regras definidas, o setor fica em marcha lenta.

Todo esse cenário desembarca na COP-30 como um grande cartão de visita do país. O Mover tem potencial, ambição e energia — falta apenas o conjunto completo de ajustes para funcionar de forma equilibrada e previsível.

A disputa pelos incentivos e a engenhosidade do setor automotivo

A tal “corrida digital” criada pelos créditos virou assunto recorrente entre engenheiros, gerentes de inovação e até entre quem só queria uma manhã tranquila de trabalho. É que, para muitas empresas menores, acessar o sistema no dia da liberação virou quase um esporte radical. Tinha gente configurando alarmes às cinco da manhã, testando conexão de fibra óptica, abrindo o navegador em aba anônima e preparando planilha com 17 lembretes sobre “clicar exatamente às 8h”.

Do outro lado, empresas gigantes faziam seus próprios rituais. Salas repletas de responsáveis por projetos, monitores mostrando relógios digitais em contagem regressiva, equipes revisando documentos pela quinta vez. No momento da abertura da plataforma, o exercício beirava uma largada de automobilismo: seria preciso clicar rápido, com precisão e sem hesitação. E quem clicava primeiro? É sabido que, na maior parte das vezes, eram as marcas com times inteiros dedicados ao processo.

Isso criou um efeito inesperado: a percepção de que, mesmo com incentivos generosos e um plano bem estruturado, o acesso ao dinheiro ainda depende de fatores que nada têm a ver com tecnologia, eficiência ou impacto ambiental. É aquela velha sensação de que as regras estão no lugar certo, mas o tabuleiro ainda precisa ser ajustado.

Apesar disso, o setor continuou avançando. Projetos ligados à eletrificação automotiva, ao uso de etanol como matriz de baixo carbono, ao desenvolvimento de baterias mais eficientes e à pesquisa de materiais leves conseguiram sair do papel. Em muitas dessas iniciativas, o Mover atuou como combustível — e combustível limpo, por assim dizer.


O efeito do IPI Verde na prática — e na cabeça do brasileiro

O brasileiro tem uma relação afetiva com carros. E quando alguém mexe no bolso — aumentando imposto de modelos tradicionais ou oferecendo bônus para veículos mais limpos — a conversa muda de tom na mesa do bar, no grupo da família e até no feed das redes sociais.

O IPI Verde chegou criando exatamente essa atmosfera. Ele trouxe números claros: alíquota-base de 6,3% para veículos leves, 3,9% para comerciais leves e uma série de variações que consideram reciclagem, segurança, potência, eficiência e tipo de propulsão. Isso fez com que muitos consumidores começassem a olhar para os carros híbridos e elétricos com um interesse diferente.

A famosa pergunta “vale a pena?” passou a aparecer em vídeos de influenciadores automotivos, rodas de conversa e até no balcão das concessionárias. E, para surpresa de alguns, os híbridos flex — aqueles que combinam motor elétrico com etanol — ganharam destaque. Para uma boa parcela da indústria, essa categoria representa o melhor casamento entre tecnologia de ponta e a realidade brasileira, já que o país tem uma das matrizes energéticas renováveis mais robustas do mundo.

Enquanto isso, SUVs a diesel viram o cenário se inverter. Modelos que antes dominavam estradas e garagens agora enfrentam aumento de imposto que pode fazer o valor final subir consideravelmente. A mudança irritou alguns fãs de veículos a combustão tradicional, mas também abriu espaço para que montadoras voltassem suas atenções para segmentos mais sustentáveis.

O Mover, nesse ponto, criou o ambiente perfeito para que a transição energética fosse acelerada, mas com algumas doses de realidade: ainda não existe infraestrutura robusta para eletrificação completa em todo o país, e muitos consumidores seguem desconfiados sobre custo de manutenção e autonomia.


Reciclabilidade: o pilar discreto que começa a crescer

Entre tantos componentes do Mover, um deles chama atenção por mexer com a forma como se imagina o fim de vida de um veículo: a reciclabilidade. De início, muita gente do setor até torceu o nariz, achando que seria apenas mais um item burocrático. Mas a ideia ganhou fôlego ao criar oportunidades para novas empresas, negócios e modelos de operação.

A lógica é simples: quanto mais um carro consegue ser desmontado e reaproveitado, maior o potencial de abatimento no IPI. Isso incentiva montadoras a pensarem desde o projeto inicial na desmontagem futura — algo comum em países como Japão e Alemanha, mas ainda pouco difundido no Brasil.

De repente, empresas especializadas em reaproveitamento começaram a surgir com propostas ousadas, como centros avançados de desmontagem, plataformas inteligentes para rastreamento de peças e redes de coleta. Só que a falta de regulamentação clara travou o embalo. Empresas querem investir, querem ampliar operações, mas sem regras definidas, fica difícil planejar.

É como tentar montar um carro sem blueprint: dá para tentar, mas ninguém sabe ao certo para onde está indo.


Ambição x realidade: o grande dilema setorial

O Brasil, com seu potencial energético limpo, sua expertise em biocombustíveis e sua indústria automotiva robusta, poderia ser protagonista global na transição verde. E o Mover tenta justamente pavimentar esse caminho. Só que o setor vem repetindo um mesmo mantra: não dá para sustentar uma política ambiciosa sem garantir previsibilidade.

A ausência de portarias complementares, o risco de desindustrialização pela ampliação da lista de autopeças importadas sem produção local e a concentração dos incentivos formam uma tempestade regulatória que impede parte do potencial do programa de decolar.

Ainda assim, empresários, engenheiros, analistas e entusiastas afirmam que o saldo geral é positivo: o país, pela primeira vez em muitos anos, tem uma política industrial com norte ambiental claro, incentivos significativos e um empurrão global — a COP-30 — lembrando que a transformação precisa acontecer agora.


O Mover visto pela indústria e pelos consumidores

Do ponto de vista das montadoras, o Mover é uma bússola que aponta para onde a inovação precisa caminhar. E isso impacta desde as linhas de montagem até decisões estratégicas de médio e longo prazo. Projetos que antes eram tímidos, como o desenvolvimento de motores híbridos mais eficientes, agora ganham espaço.

Consumidores, por sua vez, começam a se familiarizar com termos como eficiência energética, reciclabilidade, propulsão alternativa e bonificação tributária. Alguns até entendem mais do que gostariam, especialmente quando o preço do carro desejado muda por causa do IPI Verde.

O curioso é que o programa acabou criando um novo tipo de conversa nas concessionárias: agora, além de perguntar sobre consumo e design, muita gente quer saber o quanto determinado modelo é “verde o suficiente” para garantir uma alíquota menor.

É o tipo de transformação cultural que acontece aos poucos, mas que, quando se instala, muda a dinâmica do mercado inteiro.

Curiosidades que mostram como o Mover virou assunto além da indústria

Quando se fala em políticas industriais, muita gente imagina debates técnicos, reuniões sérias e relatórios com gráficos que parecem ter vida própria. Mas o Mover, de um jeito inesperado, acabou virando um tema que atravessa fronteiras e aparece em conversas que vão muito além das montadoras. E, por incrível que pareça, surgiram algumas curiosidades que dizem muito sobre o impacto cultural e social dessa transformação automotiva.

Uma das mais interessantes é como o Mover reacendeu o orgulho brasileiro pelo etanol. Não é novidade que o país domina essa tecnologia, mas, com a COP-30 e o avanço dos híbridos flex, muita gente voltou a enxergar o etanol como estrela nacional. Engenheiros contam que, em eventos internacionais, colegas de outros países sempre perguntam como o Brasil conseguiu construir uma matriz tão limpa com tanta naturalidade. E a resposta costuma ser simples: porque o país apostou lá atrás, mesmo quando o mundo ainda torcia o nariz para biocombustíveis.

Outra curiosidade veio da academia. Universidades começaram a registrar aumento na busca por projetos relacionados à mobilidade sustentável. Grupos de pesquisa sobre baterias, propulsão híbrida, reciclagem automotiva e materiais leves ganharam reforços de estudantes curiosos, muitos deles apaixonados por carros desde a adolescência. Professores contam que, ao contrário de anos atrás, agora os jovens chegam com referências amplas, citam discussões internacionais e querem entender como o Brasil pode competir com gigantes globais em termos de eficiência energética.

O Mover também gerou um fenômeno curioso entre consumidores: a explosão de vídeos explicativos nas redes sociais. De repente, criadores de conteúdo começaram a produzir tutoriais descomplicados sobre IPI Verde, bônus e malus, além de análises divertidas comparando modelos híbridos, elétricos e flex. O tom desses vídeos mistura humor com informação rápida — e, para muita gente, virou a principal fonte de entendimento sobre as mudanças. Há influenciadores que fazem sucesso com memes mostrando SUVs a diesel “suando frio” com a nova alíquota, enquanto híbridos flex aparecem “desfilando” com ar de superioridade ecológica.

Em concessionárias, outra cena inesperada: consumidores tirando dúvidas com mais profundidade. Antes, as perguntas eram sobre desempenho, consumo ou preço. Agora, vendedores relatam que o público quer saber o índice de reciclabilidade, o nível de eficiência energética e até como funciona o cálculo do novo imposto. Teve até quem chegasse com planilha própria, pronta para avaliar qual carro se encaixa melhor nos requisitos do Mover. Para vendedores mais antigos, essa mudança soa quase como outro planeta.

Do lado industrial, há histórias que misturam tecnologia com certo improviso brasileiro. Algumas empresas menores, sem equipes enormes para a corrida digital dos créditos, criaram soluções engenhosas — desde scripts de automação até salas compartilhadas com profissionais de TI para garantir que o clique aconteça no milésimo de segundo certo. Mesmo assim, muitas delas relatam que a experiência mais parece um campeonato de e-sport do que um processo burocrático.

Outro ponto curioso envolve a reciclabilidade veicular. Mesmo sem regulamentação completa, empresas descobriram que existe demanda por peças reaproveitadas em altíssima qualidade. Isso abriu espaço para oficinas especializadas em desmontagem certificada que passaram a oferecer itens com rastreio e garantia estendida. O setor começou pequeno, mas já mostra sinais de que, com regras claras, pode virar um mercado gigante.

E, claro, há o lado internacional. Com a COP-30 em Belém, executivos estrangeiros começaram a demonstrar interesse genuíno no modelo brasileiro. Não apenas pelo Mover em si, mas pelo conjunto: etanol, híbridos flex, potencial renovável e uma indústria que tenta, a passos rápidos, acompanhar o ritmo global. Alguns observadores dizem que o país está em uma posição única — nem 100% elétrico como alguns mercados asiáticos, nem preso ao combustível fóssil como outros países ocidentais.

Essas curiosidades mostram como a transição automotiva brasileira deixou de ser um assunto restrito a gabinete e laboratório e passou a fazer parte da vida real. Entre memes, debates acadêmicos, reorganização industrial e consumidores atentos, o Mover conseguiu algo raro: colocar meio país para discutir mobilidade de forma mais leve, curiosa e, muitas vezes, bem-humorada.

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